terça-feira, agosto 15

Marco o tempo
passo
faço o erro escrito
enlaço
com marcapasso
o espaço em que desenho

É meu desenho?

No meio do caminho
enlaço
O espaço escrito entre passos
Me esqueço do caminho passado
E me passo com mal passo
mas me enlaço no teu laço
e esqueço meu desejo

passo no teu passo?
piso no teu piso?
escapo,
mas retorno mal passado
pro enlace do teu voô

domingo, agosto 13

Há sempre um sentido mudo
Há sempre um sonho calado
Há sempre um "estar ao teu lado"
Há sempre um sempre será

Há sempre um sempre na vida
E a vida um sempre será
Até que outro sempre prossiga,
pois pro sempre, sempre será

sexta-feira, agosto 11

Desconfiança onírica

Recostada no canto do quarto, tranqüila, Luana dorme com a cabeça sobre minha calça usada de ontem. De repente enche-me a curiosidade de saber que sonhos se passam por dentro de sono tão sossegado, quieto, pois seria crime onírico que cachorros não sonhassem! Seria descaso imperdoável da natureza, uma falta de senso do criador.
Mas de um jeito ou de outro, contudo, impassível, Luana rosna: uma, duas vezes, outras ainda, e o que intriga é saber se ela está sonhando ou tendo pesadelo. Quer dizer, se está na iminência de confrontar-se com grandes vultos ameaçadores que espreitam o quintal da casa, no ofício da defesa doméstica, ou se está a folgar e rolar na grama com outros de sua espécie... Estes animais reservam quase que exclusivamente para o olhar a ciência da comunicação; a boca... bem, a boca é para o resto. E não digo isso por nada: para se ter uma idéia, depois de velha, ela me passa agora horas a fio mastigando entre os caninos as meias da casa, sujas, pútridas, numa avidez tanto mais encarniçada quanto mais encardidas estejam elas, deixando-as ensopadas, lubrificadas. Talvez seu maior desejo fosse que eu chegasse de cada dez em dez minutos, incansável, com os sapatos encharcados da chuva.
Sem avisar torna a soltar outro rosnado enigmático. Desperta-me curiosidade renovada: seriam minhas meias o motivo da exteriorização de seus sonhos, ou pesadelos?

segunda-feira, agosto 7

Hpótese absurda:primeiro Ìpslon?

Circula pela internet um jogo de passatempo que me fez lembrar Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Não que eu queira fazer-me profeta, e muito menos pertencente aos de linhagem pessimista, não: esta hipótese absurda serve apenas como registro curioso e inquieto, nada além disso.
Mas o que quero dizer é que este passatempo é uma espécie de distração apavorante, indigesto, um puzzle macabro mesmo! Pois o joguinho prende a atenção do internauta ao exigir-lhe a mais religiosa concentração e silêncio na tarefa de levar um pequeno ponto por entre passagens estreitíssimas em direção ao seu destino. È simples e petrifica o olhar no computador. Acontece que em certa altura, fatalmente, de maneira abrupta e estridente, surge na tela a figura do cão encarnado, do demo em pessoa. O susto é inevitável, é traumatizante.
No livro de Huxley, os bebês gerados em incubadoras, tipos de placentas artificiais, são submetidos a sessões de condicionamento emotivo e classista. Durante uma etapa desse processo, os nascidos que estão predestinados a servir nas classes mais inferiores, os chamados Ìpsilons, são induzidos a engatinharem na direção de rosas e livros. Mas quando eles chegam perto o suficiente, quase que os tocando, as crianças levam choques elétricos seguidos de gritos ensurdecedores. Dessa forma criar-se-ia então um bloqueio para sentir e pensar: e assim a estabilidade da sociedade estaria livre de possíveis conturbações que viessem de classes subalternas.
Pois que, assistindo a um vídeo que registrara a reação de um garoto de 5 anos ao tal puzzle macabro, lembrei desta cena apocalíptica criada por Huxley. Talvez uma comparação incoerente, sem pé nem cabeça, mas o susto que a criança levou deixara-a estática, muda, sem reação e certamente, ou será absurdo, mergulhada dentro de um trauma que lhe poderá cortar boa parte de sua personalidade emotiva e civil, quem sabe.... Premonição de um Ipsilon?

domingo, agosto 6

felizes, inocentes, ignorantes,
juízes, dementes, farsantes:
somos uma espécie em ascenção.
e quando formos reis
não haverá sombras ou dúvidas
mentiras ou verdades
orgulho ou remorso
por trás de discursos vazios...

quando formos deuses
todos terão pavor das palavras
que distraidamente concedermos.
e dentre as chamas e o caos virulento em que mergulhará o mundo
não haverá outro motivo para rir.

dá me logo um beijo, meu amor,
acaso existe, em algum lugar,
miséria mais afortunada que a nossa?

sexta-feira, agosto 4

“De um momento para o outro minha vida foi assaltada por indescritíveis blogs*.”
*blog , s. Espaço restrito para um mundo. (Quim.) Metabolismo emotivo compartilhado com o teclado. (Anat.) Disjunção óptica relacionada à exposição prolongada diante do computador. (Bot.) Mangueiras que dão frutos no inverno. (Psi.) Transtornos criativos em estado virtual. (Mat.) Primo distante do log. (Liter.) Só o futuro dirá.

terça-feira, agosto 1

Poeminha idiota de última hora

A sorte passou por mim
Apontou-me um caminho
era contramão
ia dar em multa.

Anadora Andrade

segunda-feira, julho 31

�... o mirante ...�

�... o mirante ...� Recado a Vinícius

Não fica bem a um marmanjo como eu já pra bater os 24 anos ficar por aí aprendendo certas coisas. Dia desses, por exemplo, reuni coragem, envesguei os olhos numa lufada de vento que chegava e, para meu alívio, devo confessar, continuei normal! Já noutro, filosofando com siris na areia sob a sombra agradável dum coqueiro ao meio-dia, quase que recebo um coco na cabeça. E não faz muito tempo me pego a conhecer a obra de Èrico Veríssimo, pra não dizer que o violão me chegou depois dos vinte. È grave, muito grave.
Outro caso foi que mês e pouco atrás estava era eu me entregando com fitinha do Bonfim no pulso e tudo a uma menina linda que só ela. Dessas que um mês é uma década em não dizer-se apaixonado. Dessas que te fazem crer ter encontrado a medida da metáfora para um poeta desprovido de recursos líricos. E eu segui tudo, meu poeta: abri conta no florista, aprendi a cozinhar, olhava-a sempre como minha primeira namorada, tive peito de remador, fui cortês e bom bebedor. Tudinho mesmo. Éramos feito ligação iônica: ninguém perdia. Mas não sei de qual das 32 direções da bússola veio tal borrasca que a tudo levou para longe, mas muito longe.
E disso aprendi a desconfiar de cartilhas Para viver um grande amor, meu Deus! Pois são outros tempos, Vinícius, caro poetinha, são outros tempos, seu bon-vivant de talento maior, são outros tempos...

a lua branca e meus sonhos negros

A lua em estado de graça
Sintoniza o sonho e o chão,
Apesar de nas ruas da desgraça
Converger-se em pueril aflição

sábado, julho 29

então, vai sendo (re)aberto este espaço, para que possamos dividir ideias, textos, besteiras...

"cath a fire"...

quinta-feira, março 23

quinta-feira, novembro 11

"A angústia pode ser comparada à vertigem. Quando o olhar imerge num abismo, existe uma vertigem, que nos chega tanto do olhar como do abismo, visto que nos seria impossível deixar de o encarar. Esta é a angústia, vertigem de liberdade, que surge quando, ao desejar o espírito estabelecer a síntese, a liberdade imerge o olhar no abismo das suas possibilidades e agarra-se à finitude para não soçobrar."

- S. Kierkegaard, O Conceito de Angústia -

terça-feira, novembro 9

um site para encontrar coisas gratis: www.prospector.cz

segunda-feira, setembro 20

Folhas no sapato
o outono quer andar.


-Paulo Leminsky

quinta-feira, setembro 9

o engano moderno: o incessante esforço em não se enganar.